Pura vaidade...
Gestos que valem beijos são aqueles de quem menos esperamos. Pelo livro, pela sensibilidade na escolha…
Sim, eu reparei que a porta da casa de banho estava semiaberta. Tentei fechá-la, mas ela não encostava à ombreira, ficavam dois palmos de espaço através dos quais eu via o quarto e via-te a ti deitado, vestido, sobre a cama. Para me despir e chegar à banheira, tinha de atravessar esse espaço aberto através do qual também tu me podias ver. Despi-me, a água quente já me esperava na banheira e Deus sabe como aquele banho me apetecia! Passei a perna por cima da borda para mergulhar o pé e experimentar a temperatura da água. Ainda me ocorreu entrar lá para dentro de costas voltadas para a porta, mas depois, e como se fosse a coisa mais natural do mundo, virei-me, sim, de frente, completamente nua, e entrei na banheira. Ao entrar olhei para o quarto e vi-te a olhar para mim. Foram apenas uns segundos e soube-me bem, não sei explicar porquê – talvez por vaidade, talvez porque já me sentisse íntima de ti e esse teu olhar não tivesse nada de estranho ou de maldade, talvez apenas porque eu queria que tu me visses e queria ver-te a olhar-me.
«No teu deserto» de Miguel Sousa Tavares (lindo este livro)